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Artigo: Crime organizado no combustível é problema de segurança e de economia

Publicado em 15/05/2026 por Redação

Por Emerson Kapaz

A pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do Datafolha trouxe um dado que precisa ser lido para além da estatística policial: 41,2% dos brasileiros com 16 anos ou mais reconhecem a presença de facções ou milícias em seus bairros, o equivalente a cerca de 68,7 milhões de pessoas. Entre aqueles que percebem essa atuação, 61,4% dizem que esses grupos influenciam muito ou moderadamente as regras de convivência locais.

O dado revela uma realidade que já não pode ser tratada apenas pela lógica da ocupação territorial ou da violência direta. O crime organizado mudou de escala. Ele continua intimidando comunidades, mas também passou a disputar mercados, controlar fluxos econômicos, lavar dinheiro e usar estruturas formais para ampliar seu poder. A fronteira entre segurança pública e economia, nesse contexto, tornou-se cada vez mais estreita.

O setor de combustíveis é um dos exemplos mais sensíveis dessa infiltração. Por sua capilaridade, alto volume financeiro, essencialidade e complexidade tributária, modalidade de pagamentos, a cadeia que vai do poço ao posto se tornou atrativa para esquemas que combinam sonegação, inadimplência, adulteração, empresas de fachada, notas fiscais clonadas ou sem lastro, importações fraudulentas, fraudes em bombas, furto de dutos e roubo de cargas, simulação de operações interestaduais e lavagem de dinheiro.

Estimativa do Instituto Combustível Legal (ICL) aponta que crimes envolvendo combustíveis geram prejuízo anual de R$ 30 bilhões ao país. Desse total, R$ 15,7 bilhões estão ligados a roubos, furtos, adulterações, fraudes em bombas e postos piratas. Outros R$ 14 bilhões decorrem de fraudes administrativas e fiscais.

São recursos que deixam de financiar políticas públicas, distorcem a concorrência e enfraquecem a capacidade do Estado de responder justamente às demandas de segurança, saúde, educação e infraestrutura.

As operações recentes mostram a dimensão do problema. Na Operação Carbono Oculto, a Receita Federal informou que cerca de 1.000 postos vinculados a um grupo criminoso movimentaram R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024, com recolhimento tributário incompatível com a atividade declarada.

A investigação também identificou mais de R$ 10 bilhões em importações, R$ 8,67 bilhões em créditos tributários, ao menos 40 fundos usados para ocultação patrimonial e uma fintech que teria funcionado como “banco paralelo”, movimentando mais de R$ 46 bilhões.

Esses números ajudam a explicar por que o combate à ilegalidade nos combustíveis deve ser tratado como política de segurança pública, defesa do consumidor, proteção da concorrência e integridade econômica.

Quando uma organização criminosa controla elos da cadeia, ela não compete: captura mercado. Pode vender abaixo do preço porque não recolhe tributos, adultera produtos, usar empresas interpostas, simula operações interestaduais, manipula estoques e reciclar recursos ilícitos. O posto correto, a distribuidora regular e o consumidor pagam a conta.

Essa atuação precisa ser observada do poço ao posto. Na origem, é fundamental acompanhar importações, aquisição de insumos, solventes, metanol e componentes que podem ser utilizados em misturas irregulares.

Na distribuição, é necessário cruzar volumes comprados e vendidos, notas fiscais, estoques, processo de mistura com os biocombustíveis, movimentação entre bases e transporte ao revendedor.

No varejo, a fiscalização não pode olhar apenas para o produto estocado e que é fornecido na bomba, mas também para a origem do produto, a regularidade fiscal, a coerência econômica da operação e a estrutura real por trás das empresas.

O problema não está apenas no combustível adulterado que chega ao tanque do veículo, embora esse seja um risco concreto para o consumidor.

Artigo publicado em: https://eixos.com.br/combustiveis-e-bioenergia/crime-organizado-no-combustivel-e-problema-de-seguranca-e-de-economia/

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